sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Vale do Matutu
O Vale do Matutu (lê-se Matutú) é um paraíso no Sul de Minas Gerais que me foi apresentado por minha mãe. Ela é fanática, viaja para lá praticamente todos os feriados do ano, participa de filas de espera e tem em São Paulo diversas amigas que conheceu lá e que, assim como ela, batem carteirinha na região. Não é para menos, como eu mesma descrevi o lugar é um paraíso na terra. A pousada é de um senhor nos seus 70 anos que ao que me parece nunca casou, a não ser pelo compromisso que assumiu com este vale encantado. Mas a opção de celibato dele não é algo que seja da minha conta, apenas queria com esta informação enfatizar a dedicação deste homem em tornar este lugar tão agradável e prazeroso. Quando se chega próximo à Pousada do Matutu você deve estacionar o carro e lá um homem já está à espera para te ajudar a carregar sua bagagem até a pousada, que fica morro acima. Ali você deixa de preferência as suas preocupações, celulares, eletrônicos e o mal humor. Mas não confunda o serviço deste homem com luxo, muito longe disso. Na casa sede o dono está a espera para te receber e encaminhar até seu quarto, que pode ser com duas ou uma só cama, que são os melhores pois significam que você estará num processo interior e pessoal ainda maior. As refeições são vegetarianas e acontecem em uma grande mesa, com todos os hospedes juntos como uma família. A pousada oferece passeios às cachoeiras, Yoga, meditação na capela ao final de todos os dias, oficinas de mosaico e uma pequena biblioteca na sala de estar, onde as pessoas ficam, geralmente após a janta, conversando e jogando. Eu pessoalmente, quando vou ao Matutu só penso em ler, embora goste bastante das atividades propostas. Mas é que tem alguma coisa com o lugar, o silêncio, o quarto solitário, a lareira no inverno, que me faz ter vontade de sentar e ler por horas, girando de um lado para o outro para encontrar novas posições. Melhor que levar um livro é também deixar para escolher um da própria pousada e ter assim o objetivo de ler até o final para não trazer de volta à São Paulo a curiosidade de um livro inacabado. O Matutu é assim, um lugar maravilhoso para relaxar e se apaixonar por um livro.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Ler para ser
Na minha infância não me foi dada a opção de não ler, fato este que agradeço imensamente aos meus pais. Eles souberam introduzir a obrigação como uma diversão, sem causar o trauma da leitura. Meu pai nasceu em uma família muito pobre, onde estudar não era uma prioridade, já que sobreviver era necessário. Dentre seus oito irmãos ele foi o único a deixar a pequena cidade de São Francisco do Sul para cursar uma universidade, a Universidade de São Paulo. Um exemplo de perseverança ele não conseguiu relaxar enquanto não viu todos os seus filhos (somos quatro) na escola estudando. O que era para ser algo maçante vindo de um pai rígido com os estudos foi diluído com o carinho que foi transmitido. Desde pequenina tive meu pai ou minha mãe sentados na beira da minha cama todas as noites, contando histórias dos irmãos grimm e princesas. Até que um dia disse a eles: Hoje eu vou ler sozinha! E dali por diante entrei, por minha conta, em mundos de aventuras cheios de surpresas, que me faziam girar de um lado para o outro na cama. Essa foi a minha história, o início de um amor, a leitura. Mas essa relação nem sempre foi assim, um mar de rosas... e qualquer hora eu conto mais um pouco das aventuras de Ludmila e seus livros.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Memórias
Quando oferecida a possibilidade de falar do meu passado, muitas aventuras me veem à cabeça, partes de uma infância bem vivida. Mas nem sempre essas aventuras foram vistas como algo engraçadinho típico de uma criança. Estávamos, eu e minha família, viajando para Santa Catarina nas férias escolares de 1992. O carro era um Escort com meu pai dirigindo, no banco do passageiro meu irmão e atrás, feliz e contente, eu. Lembro perfeitamente da brincadeira que fazíamos: adivinhar qual a marca do carro que viria na próxima curva. "Volkswagen", disse meu irmão; "Ford", eu gritei entusiasmada; "Ah essa não vale que eu já vi", disse meu pai. Mas num ímpeto e na frustração de ter que cancelar aquela rodada eu sem pensar tapei os olhos do meu pai que estava dirigindo e disse: "Não viu não!" Ele, por sua vez, num reflexo de motorista colocou o pé no freio imediatamente, causando dali por diante um grande acidente na rodovia. O carro invadiu a pista oposta, ziguezagueou, fez outros carros frearem bruscamente e por fim perdeu o controle, caindo em uma ribanceira. Foram cerca de 200 metros morro abaixo, sem saber o que o futuro reservava para nós, quando de repente, o carro parou. Olhamos uns para os outros e quando vimos que estávamos vivos e sem ferimentos meu pai começou a rir aliviado. Olhamos para cima na estrada e uma multidão esperava algum sinal de vida naquele carro ali parado. Quando abrimos a porta do carro e saímos andando normalmente recebemos aplausos de todos, mas o motivo do acidente decidimos que ficaria ali guardado. Esse foi certamente meu maior "delito" infantil, o qual nos divertimos até hoje em contar e relembrar, somente pelo fato de estarmos vivos.