Na aula passada de Leitura e Escrita lemos textos falando das memórias de infância de dois escritores, João Ubaldo Ribeiro e Graciliano Ramos. Eu sempre pensei que para se adquirir gosto pela leitura e escrita era necessário que as mesmas fossem introduzidas à criança sem pressão e sem castigos. Em minha experiência em londres, quando trabalhava cuidando de quatro crianças de uma mesma família, tive muitas discussões com a mãe delas sobre esta minha certeza. Ela estipulou que todos os dias às 17:30 eu e o menino mais velho, com oito anos, deveríamos ir para o escritório da casa e ele leria para mim o livro dele por meia hora e que no final eu faria perguntas sobre o trecho lido e que, ao final do livro, ele faria uma redação a respeito. Na hora da leitura todos os dias esse menino subia as escadas se arrastando, como se estivesse caminhando no corredor da morte. Em uma semana resolvi dizer a ela o que eu achava daquilo tudo, pois estava sofrendo com ele. Disse que eu achava que ele iria criar um trauma de leitura, que ele não lia por prazer e sim para cumprir uma tarefa e que, na hora das perguntas, ele me respondia coisas simples sem mostrar interesse. Ela respondeu que não sabia o que fazer pois perguntas, respostas e redação eram exigências da escola. Disse que se eu soubesse outro método que o fizesse então. O triste é que eu não sabia. Então tentei perguntar para o próprio menino como ele queria fazer todas aquelas tarefas. Ele começou dizendo que queria ler por si só, sem ser para mim, concordei, afinal isso não era exigência! Então comecei a ler meu livro enquanto ele lia o dele. As vezes ele me perguntava o que estava acontecendo no meu livro, se eu estava gostando, eu dizia que sim e que o mocinho beijou a mocinha e que zás e blás e pum... e eu estava muito curiosa pra saber se poderiam ficar juntos. E então parava e perguntava: E o seu? tá bom? o que está acontecendo? e a partir desses relatos começamos a fazer as anotações que a escola tanto precisava. A escola era francesa e algumas das leituras eram em francês, mas isso era mais simples pois, por eu não entender muito de francês, ele se sentia o máximo de ler e traduzir tudo para mim.
Mas voltando aos textos lidos e talvez fazendo uma ligação com o caso do Maxime, o menino que eu cuidava, não entendo como Graciliano Ramos conseguiu se tornar um escritor. Na minha teoria ele odiaria ler e escrever para o resto da vida. Já para João Ubaldo Ribeiro tudo me pareceu mais prazeroso, mais livre e, sendo assim, na minha opinião mais produtivo. Então penso que talvez o desejo da leitura e da escrita aconteça para qualquer um, indiferente das formas que lhe foram passados na infância. O que deve mudar é a maneira com que esses hábitos exercem sobre nossas vidas. Graciliano escreve, pelo menos neste texto, de forma mais dura, como que colocando para fora sentimentos guardados da infância, João Ubaldo já deixa claro uma infância mais livre, onde mesmo tendo sido forçado pelo pai a aprender a escrever cedo, não se lembra disso de forma rancorosa, e o Maxime eu não sei, é muito cedo para dizer de que forma ele vai usufruir disso tudo no futuro, espero que da melhor maneira possível.